
Você já se perguntou: "Vale a pena tudo isso?"
Você já
se envolveu em algo que sentiu que Deus queria que fizesse, mas se sentia
totalmente impotente, inútil ou infrutífero?
Quem sabe, você orou, planejou, se preparou
e já estava pronto para seguir seu caminho, ou talvez tinha até dado alguns
passos... Mas, espera aí, pare! Subitamente, o tão almejado projeto implodiu. Ufa! Que
perda de tempo e esforço! E você pensou: "O que que é isso?"
Bem-vindo à vida real!
Eu gosto muito de contar histórias, histórias de
Deus, contos reais que nos ajudem a ver que o papel de Deus na história é
sempre bem maior que o nosso, mas geralmente é também bem menos percebido. Às vezes, desfilamos no pequeno palco do minúsculo teatro chamado "Vida". Achamos que
somos a estrela do show, ou pelo menos, um dos personagens principais. Desculpe-me
por estourar seu balãozinho, mas somos meros “extras” com papéis menores em Sua
História, que às vezes até chamamos de "nossa história".
“Valeu a pena?” é uma dessas histórias. Aconteceu há muitos anos. Para ser
exato, começa por volta de 1895 na cidade de Nova York no Instituto de
Treinamento Missionário fundado pelo Rev. A. B. Simpson do Tabernáculo Evangélico, presidente da Aliança Cristã e Missionária.
Em 30 de abril de 1896, um grupo de nove missionários novos e antigos
“despediram-se” do Tabernáculo e partiram para o Congo Belga. Conforme citado na
edição de 1º de maio do C&MA Weekly: “Em 1896, um grande grupo de missionários da Aliança viajou
para o Congo. Um dos participantes da festa, Hugo Schilde [veja na foto acima,
2ª fileira à esquerda, o homem do meio], era um grande homem de oração. Ele
passava boa parte do tempo no navio estudando a Palavra e orando com um de seus
companheiros missionários ”. Ironicamente, a mesma edição da C&MA Weekly
relatou a morte de “Sr. McDonald ”, um valioso missionário veterano há cinco
anos no Congo, cujo treinamento médico abençoou a missão e a população local,
outra vítima deste assolador campo chamado Congo.
Hugo Schilde pode ser descrito como "solteiro, suíço e sincero" e
foi um dos chamados "irregulares" de Simpson. Ele havia migrado para
os Estados Unidos alguns anos antes. Pode-se imaginar sua chegada à Ilha Ellis
no porto de imigração de Nova York, quando seus documentos foram verificados e
os médicos se certificaram de que ele estava com os pulmões limpos e não estava
doente. Mal sabia ele então o que o esperava poucos anos depois. Embora de
estatura baixa, Hugo era grande na fé. Ele disse a seus colegas que “não achava
que o Senhor o estava levando ao Congo para morrer em pouco tempo, mas que ele
teria muitos anos de serviço”. Mas, como todos sabemos, os pensamentos de Deus
nem sempre são nossos.
Chegando ao Congo Belga em junho de 1896, Hugo começou a mergulhar nos mistérios
do dialeto Fiote da bela língua Kikongo. Quando não estava
estudando essa nova língua, Hugo passava horas orando. Em seu pequeno quarto de
tábua na base missionária de Vungu, o jovem missionário arou o solo duro do
Congo de joelhos. Em seu diário, ele havia escrito entre outros o nome de “Kapita
Mabengi,” um assassino cruel e notório que trabalhou para os colonizadores
belgas.
Após cerca de seis meses de estudo do idioma em Vungu, o homezinho de
oração caiu com “febre”, como tantos de seus colegas haviam feito antes. Apesar
de sua forte fé e desejo de servir por muito tempo com afinco, Hugo morreu sem
nunca pregar um único sermão, ou ensinar uma lição bíblica ou poder evangelizar
uma única pessoa na densa floresta tropical do Mayombe. Então, eis a questão?
Valeu a pena viver e morrer em uma terra distante sem nunca realmente fazer
algo? Pois é, sim, ele orou. Mas foi só isso... Ou foi?
E agora, para a conclusão da história, é a Missionária Sarah Crist,
veterana de quarenta anos de missão no Congo com seu marido, Elmer, que nos
conta algo fascinante:
“Tata Mabengi, um homem que amava a Deus e as almas da sua gente, foi chamado para seu
lar eterno. Como sentimos falta dele! Tanto brancos quanto negros percebem intensamente
que um poderoso guerreiro caiu.
“Sua infância foi como a de qualquer criança nascida numa terra pagã. Ao
nascier, o feiticeiro foi chamado: amuletos foram feitos e colocados em seu
corpo para garantir a proteção dos espíritos malignos; um nome foi dado a ele, Kambu
ku Ngwala, mais tarde mudado por ele mesmo para Mabengi, por causa
da escuridão de sua pele.
“Ele cresceu até a idade adulta e se vendeu como escravo para redimir um
parente que tinha se envolvido em sérios apuros. Ele havia recebido a promessa
de redenção, mas depois de anos de espera, ele se comprometeu a se resgatar
fazendo e vendendo tornozeleiras e portas de madeira, e também vendia carne de
caça. A alegria daquele dia, quando ele recuperou sua liberdade, só foi
superada pela alegria daquele dia mais tarde, quando Deus, pelo amor de Cristo,
o salvou do pecado.”
A Sra. Crist continua contando a história de Mabengi, como ele procurou uma
esposa para se casar e, eventualmente, conheceu uma jovem, Makomba.
“Durante meses, ele juntou óleo de palma e nozes para serem trocados por
mercadorias para comprar sua noiva. Mas a caravana que continha seu tesouro foi
detida por soldados e roubada, e os carregadores foram colocados na prisão.
Mabengi agora tinha que pagar ao dono da caravana pelos problemas que se
abateram sobre eles, além de trabalhar muitos meses mais cansativos para
conseguir seu dote”.
Finalmente, o preço estabelecido pela noiva foi pago e ele trouxe sua jovem
esposa para sua cabana simples. Naquela época, Mabengi ainda era um descrente.
Por causa de sua personalidade forte e capacidade de liderança, ele foi
recrutado pelas autoridades belgas para se tornar um kapita, (uma gíria para
a palavra “capitão”). Ele liderou um grupo de “executores,” nativos que
garantiram que os locais não se esquivassem de seu trabalho como carregadores e
trabalhadores para as autoridades do Estado Livre do Congo. Um dia, ao saber do
roubo das bagagens de brancos, as autoridades belgas ordenaram que Mabengi
levasse seus soldados até a aldeia onde os itens roubados estavam escondidos
para recuperá-los. Lá, eles saquearam a aldeia, recuperaram a carga, roubando e
assassinando muitos na cidade indefesa. Conforme relatado pela Sra. Crist, “muitos
homens, mulheres e crianças morreram naquele dia pelas armas, espadas, lanças e
facas de Mabengi e seus homens. Ele era um soldado cruel e sem coração. ”
Pouco depois desse ataque, ele passou pela estação missionária de Yema
e, ouvindo as pessoas cantando no culto matinal, parou para ouvir. A última
estrofe de um hino estava sendo cantada, e as palavras que ele ouviu foram
estas:
Mas medo, dificuldade e tristeza serão para eles.
Quem não ama Jesus aqui na terra;
Sua porção estará no lago que queima,
Com assassinos e todos os malfeitores!
As palavras da últimas linha queimaram como um lago de fogo em seu coração.
Ele sabia que era um assassino; o sangue estava em suas mãos. Seu destino era o
lago que arde para sempre. Então, Mabengi decidiu mudar e desistiu de seu posto
de kapita. Nada mais de violência e crueldade. Ele decidiu seguir o Yesu
Klisto de que o missionário falou. Embora ele tenha tentado, ele falhou.
Mabengi tornou-se então uma espécie de juiz tribal, um árbitro de
desentendimentos entre famílias. Pagou bem, mas se prestou à corrupção. O tempo
todo, o Espírito Santo sussurrava suavemente as palavras sobre "Sua porção
estará no lago que queima, com assassinos e todos os malfeitores."
Ele não conseguia tirar as palavras da mente e não conseguia escapar do
cheiro de sangue em suas mãos. Ele foi até o riacho com um sabão forte e tentou
lavar o cheiro de sangue humano, esfregando as mãos até sangrarem. Mas o cheiro
permaneceu. Sua esposa, Makomba, no início foi muito dura e desinteressada com
a tal “conversa de Jesus” dos missionários. No entanto, as palavras pregadas penetraram
pelas paredes de capim de sua choça. Ela gradualmente começou a entender a
mensagem do missioni sobre Jesus, filho de Nzambi Mpungu, o Deus
Todo-Poderoso. Ela creu em Jesus e se tornou uma seguidora de Cristo. E, logo
depois disso, ela foi batizada.
Ao mesmo tempo, Mabengi chorava porque não conseguia escapar do odor de
sangue inocente em suas mãos e do peso da culpa em seu coração. Não adiantava
esfregar as mãos para trazer paz à sua consciência pesada. Makomba disse-lhe
que “até que seu coração seja lavado no sangue do Cordeiro de Deus, o cheiro
continuará com você”. Até que finalmente um dia, Mabengi entendeu, e com fé orou
para ser perdoado de seus muitos terríveis pecados. Ele mergulhou na fonte da
grande graça de Deus e foi lavado no sangue de Jesus, limpo e livre do cheiro
de sangue e do odor do pecado. Hugo Schilde morreu em novembro de 1896 e
Mabengi nasceu de novo menos que dois anos depois.
Após sua conversão, ele frequentou uma das simples “escolas do mato” e
aprendeu a ler o suficiente para entender as estranhas marcas nas páginas
brancas. Logo, ele carregava sua grande Bíblia em Kikongo para todos os lados,
estudando-a e memorizando longas passagens. Ele começou a viajar pela floresta
contando a outros sobre este Salvador, Jesus. Por causa de seu passado violento
e sua associação com inimigos do evangelho, ele teve que provar a si mesmo.
Portanto, ele não foi batizado até 1902, quando o último dos céticos se
convenceu de sua sinceridade. No dia de seu batismo, em uma espécie de ato
profético, ele escolheu o “nome cristão”, Isaki, ou Isaque, o grande
profeta do Antigo Testamento. Ele logo se tornou “o homem mais conhecido da
missão, agora terno, gentil e simpático”, em contraste com seu passado como o
temido “Kapita”. Em 1905, Mabengi e Makomba foram enviados para Ndingi,
nas profundezas da floresta, não muito longe do rio Chiloango, fronteira com o
vizinho protetorado Português de Cabinda.
Quando o jovem casal se mudou para lá para ensinar a Palavra de Deus aos
moradores, o chefe Madingi e os habitantes da cidade não gostaram da
mensagem sobre o pecado e o "lago que queima". O chefe obrigou o
casal a deixar a aldeia e morar na floresta próxima e ordenou que não
voltassem. Ao encontrá-lo em uma aldeia próxima, jovens valentões de Ndingi
espancaram Mabengi gravemente. O chefe decidiu que eles não queriam “a mensagem
do homem branco” e disse aos jovens da aldeia que lhes daria cinquenta peças de
pano para dividirem entre si [uma boa soma] para se livrar de Mabengi. Assim,
eles cuidadosamente traçaram seus planos para atirar nele, já que ele costumava
deixar sua pequena barraca na floresta de manhã cedo para caçar macacos ou
outros pequenos animais.
Enquanto Mabengi caminhava silenciosamente pelo trilho, uma voz sussurrou:
"Pare, volte para casa." Mabengi olhou em volta e não havia ninguém.
Ele deu mais um passo, e mais forte: "Pare, volte para casa agora."
Assim, Mabengi se virou e caminhou em direção à sua casa. Quando ele estava para
chegar, ele ouviu um tiro seguido por um grito. Mais tarde, ele soube que os
jovens da aldeia, escondidos no mato perto do caminho por onde ele caminhava,
atiraram em outro homem por engano. Esta “quase” fatalidade causou ao Chefe
Madingi muita dor de cabeça e despesas a pagar pelos danos à família do homem
ferido pelo tiro “que saiu pela culatra.”
A Missionária Catherine Jones, veterana de décadas e professora da Missão
deMboka escreveu: “Eu ouvi o Sr. J. D. R. Allison (antigo missionário) contar
como Mabengi foi ungido pelo Senhor para seu ministério. Houve um período em
que todos os missionários ficaram tão desanimados e havia tão pouco fruto que
eles estavam prontos a desistir e ir para casa por volta de [1906-07]. O Sr.
Allison disse ‘não’, ele se dedicaria à oração até que Deus mudasse a situação.
Então, por muitos dias, ele não fez mais nada além de orar. Isso se seguiu a um
período em que Mabengi veio até ele com seu relatório trimestral que não mostrou
muito resultado; isso pesou no Sr. Allison, e ele orou. Logo depois, Mabengi voltou
e disse que teve um novo encontro com o Senhor e que as coisas seriam
diferentes. Esse foi o início de sua entrada sob o fogo do Senhor e foi muito
importante.”
Naquele ano, 1907, foi o ano crítico de avanço da Missão Aliança no Congo,
quando pela primeira vez, na "convenção nativa", várias centenas de
homens, mulheres e crianças se reuniram em Yema para vários dias de
oração, pregação e comunhão. O Espírito Santo desceu sobre aqueles reunidos,
que apenas uma década ou mais antes viviam em cativeiro espiritual, ignorância,
crueldade e desesperança. O Sr. Allison e outros membros da equipe da missão
oraram por dias com Mabengi e outros evangelistas nacionais pedindo a Deus por
um reavivamento, e Deus respondeu às orações. Essa convenção de 1907 é reconhecida
hoje como o ponto de virada para a Missão da Aliança e a igreja nacional no
Congo.
Mabengi e Makomba continuaram a arar o solo de joelhos e plantar a semente
do evangelho em Ndingi. Eventualmente, eles foram autorizados a mudarem de
volta à aldeia. Mabengi se tornou conhecido como um homem poderoso de oração. Os
enfermos foram levados para sua pequena casa, e voltaram para suas choças curados
pela oração fervorosa e eficaz daquele homem justo. Ele e sua esposa, com seu
filho adotivo, tornaram-se modelos para gente que nunca havia conhecido o amor
e a devoção num lar. Gradualmente, o número de crentes superou seu simples
local de reunião. Eles decidiram construir uma “casa grande” para seu local de
adoração. Mabengi teve um sonho mostrando a ele como construir um molde de
quatro tijolos simples, mas eficiente, que lhes permitia produzir rapidamente
milhares de tijolos cozidos ao sol para sua igreja, que acomodava mais de
oitocentas pessoas. Em 1925, este fiel homem a Deus foi ordenado como o
terceiro pastor da Igreja Aliança do Congo.
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| Missão em Mboka, 1930 |
Nos seus últimos anos após o
estabelecimento da igreja em Ndingi, ele fez longas viagens através da
fronteira para Cabinda portuguesa. Muitas vezes ele foi parado pela polícia de
fronteira portuguesa e espancado. Eles estavam sob as ordens dos padres de não
permitir entrar ele ou qualquer pregador protestante em seu território. Apesar
disso, Mabengi viajou por toda Cabinda, pregando e ensinando, e estabelecendo
escolas simples na mata para os novos crentes. Em 1906 e 1907, ele foi o guia
conduziu Elmer Crist e Clinton Welles, dois jovens missionários da Aliança,
para o coração do Mayombe, onde fundar a Missão de Mboka.
Ainda na ativa em janeiro de 1930, Mabengi caminhou muitos quilômetros pela
floresta de Ndingi a Kinkonzi, para a formatura do Alliance Bible Institute onde
outra classe de jovens estavam prontos para compartilhar Cristo com seu povo.
Mabengi disse a um dos novos pastores: “Há apenas três [de nós pastores]
restantes que lembram das dificuldades que os primeiros missionários suportaram
para nos levar o Evangelho. Quando eu for embora, haverá apenas dois. Seja fiel
em seu ministério. ” Mabengi falou com um dos outros pastores mais velho sobre
coisas que queria lhe deixar quando partisse. Quando questionado se se sentia
bem, ele disse que estava “com boa saúde e tinha forças”. Em seguida, os
pastores e alunos partiram para o culto matinal. Ninguém percebeu que Mabengi não
estava até o encontrarem morto na trilha. Ele foi enterrado na manhã seguinte
em 19 de janeiro de 1930 e lembrado como um homem de oração e zelo pelo serviço
a Seu Senhor e Salvador. Purificado pelo sangue, Deus deu-lhe mãos limpas e um
coração puro e vinte e cinco anos frutíferos de ministério.
Então você pergunta: “Valeu a pena? Importava que um homem que ninguém
conhece, ou se lembra hoje, Hugo Schilde, foi para o Congo, viveu seis meses e
morreu?” Bem, pode não ter importado muito, exceto pelo fato de que Deus lhe
deu fé para orar por um dos “principais dos pecadores”, Mabengi. O trabalho de
Hugo Schilde no Congo era orar por um assassino violento, longe de Deus e
temido por seu povo. Deus ouviu aquela oração da fé e começou a trabalhar na
consciência do homem com sangue nas mãos. O estoque de orações de Hugo
armazenado no céu continuou a ir diante do trono de Deus até que o Espírito
Santo finalmente derrubou a porta do coração de Mabengi, e ele se tornou uma
nova criação em Cristo Jesus.
Talvez você possa imaginar comigo, aquela cena em janeiro de 1930, quando o
corpo gasto de Mabengi caiu, sozinho naquele trilho da floresta, e seu espírito
foi levado por uma escolta angelical ao céu. E lá na comiitiva de boas vindas
estava o homenzinho de oração Hugo Schilde, agora sorridente e rodeado por
centenas de outros crentes Bakongo no céu por causa do testemunho do Poderoso
Guerreiro do Congo. Sim, valeu a pena!
Rev. David Jones